Evangelho segundo S. João 21,15-19.
Quando Jesus
se manifestou aos seus discípulos junto ao mar de Tiberíades, depois de terem
comido, perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que
estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.»
Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» Voltou a perguntar-lhe uma
segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu
sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas
ovelhas.» E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és
deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira
vez: 'Tu és deveras meu amigo?' Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu
bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas
ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo
atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as
mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.»
E disse
isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus.
Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!»
Comentário ao Evangelho do dia feito por :
Bem-Aventurado João Paulo II
Encíclica «Ut unum sint» §§ 90-93
(trad. © copyright Libreria Editrice Vaticana, rev.)
«Apascenta as Minhas ovelhas»
O Bispo de Roma é o Bispo da Igreja que conserva o testemunho do
martírio de Pedro e de Paulo. [...] O Evangelho de Mateus traça e especifica a
missão pastoral de Pedro na Igreja. [...] «Também Eu te digo: Tu és Pedro, e
sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja» (16,18). Lucas põe em evidência que
Cristo recomenda a Pedro que confirme os irmãos, mas ao mesmo tempo dá-lhe a
conhecer a sua fraqueza humana e a sua necessidade de conversão (22,32). É como
se, sobre o horizonte da fraqueza humana de Pedro, se manifestasse plenamente
que o seu particular ministério na Igreja provém totalmente da graça.
[...]
Logo a seguir à sua investidura, Pedro é repreendido com
rara severidade por Cristo, que lhe diz: «Tu és para Mim um estorvo» (Mt 16,
23). Como não ver, na misericórdia de que Pedro tem necessidade, uma relação com
o ministério daquela misericórdia que ele foi o primeiro a experimentar? [...]
Também o Evangelho de João sublinha que Pedro recebe o encargo de apascentar o
rebanho com uma tríplice profissão de amor, que corresponde à sua tríplice
negação. [...] Quanto a Paulo, conclui a descrição do seu ministério com a
surpreendente afirmação que lhe foi concedido ouvir dos lábios do Senhor:
«Basta-te a Minha graça, porque é na fraqueza que a Minha força se revela
totalmente», podendo em seguida exclamar: «Quando me sinto fraco, então é que
sou forte» (2 Cor 12, 9-10). [...]
Herdeiro da missão de Pedro [...],
o Bispo de Roma exerce um ministério que tem a sua origem na misericórdia
multiforme de Deus, a qual converte os corações e infunde a força da graça onde
o discípulo sente o sabor amargo da sua fraqueza e miséria. A autoridade própria
deste ministério está posta totalmente ao serviço do desígnio misericordioso de
Deus e há-de ser vista sempre nesta perspectiva. É nela que se explica o seu
poder. Ligado como está à tríplice profissão de amor de Pedro, que corresponde à
tríplice negação, o seu sucessor sabe que deve ser sinal de misericórdia. O seu
ministério é um ministério de misericórdia, nascido de um acto de misericórdia
de Cristo. Toda esta lição do Evangelho deve ser constantemente relida, para que
o exercício do ministério petrino nada perca da sua autenticidade e
transparência.